O Botão que pode ajudar em seu casamento

16 de fevereiro de 2012





O Botão que pode ajudar em seu casamento.

Na recepção do consultório de meu analista, ao sair de uma sessão, perguntei à recepcionista como poderia fazer para abrir a porta. Ela sorriu, e disse: “É só apertar o botão.”

Olhei por alguns segundos para aquela porta, e percebi que ao lado havia pelo menos uns 3 ou 4 botões diferentes. Até que notei que um deles trazia sobre si em letras garrafais a legenda “Botão”.

Isso me fez refletir sobre um dos pilares do relacionamento humano: o mal entendido que ocorre nos relacionamentos. E isso me motivou a escrever o abaixo.

Todo ser humano constrói seus relacionamentos amorosos com base nas experiências que cresceu vivenciando. Em termos bem simples, é da sua observação dos relacionamentos à sua volta, de seus pais, avós e outros que o cercam, que extrairá os seus parâmetros para os relacionamentos da vida adulta. Muitas vezes, nem se tem consciência disso, mas não é raro que ao se lembrar da semelhança de comportamento alguém dê uma risada saudosa, ou até mesmo se aborreça de repetir um padrão que considera indesejado.

O que normalmente as pessoas não percebem é que um botão não é uma definição universal. A legenda na recepção do analista mostra isso. Se “o botão” fosse uma coisa óbvia e universal, ela não seria necessária.

Pensemos agora em um casal típico. Vamos chamá-lo de José e Maria.

José cresceu vendo que, quando sua mãe chegava em casa aborrecida, o seu pai costumava consolá-la, e lhe dar palavras amenizadoras, dizendo que tudo ia ficar bem. Sua mãe geralmente se acalmava após isso, e tinha em seu pai uma pessoa que poderia lhe trazer tranquilidade.

Maria, por sua vez, cresceu vendo que, quando sua mãe chegava em casa aborrecida, seu pai se calava e a ouvia. Seu pai sabia que sua mãe precisava simplesmente desabafar e lhe emprestava um ouvido solidário, até que ela se acalmasse.

José e Maria se casam. Após algumas atrapalhadas situações em que Maria chega nervosa em casa, e José tenta consolá-la, Maria liga às lágrimas para suas amigas, dizendo que José nunca a ouve. E escuta de suas amigas que homem é assim mesmo.

José, por sua vez, liga para seus amigos dizendo que não consegue entender sua intempestiva esposa. E ouve de seus amigos que é praticamente impossível entender as mulheres.

Para piorar a situação, José decide passar na floricultura e comprar rosas para apaziguar os ânimos. Sem saber que a pequena Maria cresceu vendo que, quando o pai, dava rosas à sua mãe, ela depois se queixava de sua infidelidade. “Ele está me traindo. É por isso que não me ouve.” - Pensa Maria, dias depois.

Poderíamos pensar em um cenário às avessas. O avô de Maria gostava de chá, e sempre pedia um chazinho ao chegar de visita em casa. José, porém, cresceu ouvindo sua mãe ironizar seu pai quando este se aborrecia: “Está nervoso? Quer um chazinho?”

A oferta de Maria por um chazinho, gesto que para ela representa seu carinho por José quando este chega cansado do trabalho, é visto como um deboche por José, que já se aborreceu no trabalho e esperava uma noite tranquila.

O leitor provavelmente pensará que a história acima é apenas uma trágica comédia fictícia. Não é. Embora o caso seja, de fato, fictício, é muito mais verdadeiro do que pode parecer.

Seres humanos organizam palavras, frases, gestos, posturas, imagens, etc. de forma afetiva. Um botão para você jamais será exatamente a mesma coisa que o é para mim.

É claro que existem conceitos universais, caso contrário não seria possível viver em sociedade. Mas a esses conceitos se soma uma bagagem afetiva, que é exclusiva de cada pessoa.

Talvez um botão te lembre rosas, e isso lhe desperte uma memória romântica. Para alguém que trabalhou por muitos anos como costureira e não gostava de seu ofício, um botão pode evocar memórias desagradáveis.

Na China, deixar restos de grãos de arroz no prato é uma grande indelicadeza. Certamente que para nós ocidentais isso seria impensável. É fácil perceber essas grandes diferenças simbólicas entre dois países distantes. Mas é difícil enxergar as pequenas diferenças que existem entre duas pessoas próximas.

A base de muitos conflitos está nas expectativas frustradas. E essas expectativas são frustradas porque o outro não é aquilo que esperávamos que fosse. E as situações do dia-a-dia podem gerar um mal entendido.

O leitor, que está de fora, tem facilidade de perceber o mal entendido. Mas para quem está dentro nem sempre é assim. Para Maria é tão óbvio que um homem deve emprestar um ouvido solidário que ela sequer acha necessário dizer isso ao José. Ou, quando diz, já é em tom de briga ou crítica feroz. E brigas dificilmente são formas eficazes de diálogo.

José, por outro lado, jura de pés juntos que Maria é debochada ao lhe oferecer chazinho quando ele chega estressado. Ele, mais recatado, se cala em sua mágoa. Mágoa essa que irá surgir em dado momento, e talvez será descarregada numa situação completamente inesperada.

Frequentemente, a vida a dois precisa de legendas. Mesmo para coisas tão aparentemente óbvias como um botão. É muito importante que um casal seja capaz de conversar francamente sobre como certos gestos e palavras os fazem se sentir.

Aqui fica também evidente a ineficácia, para se resolver tais conflitos, de se ler livros de auto ajuda para supostamente entender o sexo oposto. De nada adianta tentar rotular homens e mulheres como se fossem todos iguais, pois cada indivíduo se forma em meio a muitas variáveis.

A saída é sentar e ouvir o outro. Mas isso deve ser feito numa conversa franca e amorosa. Não como duas pessoas que querem cobrar coisas uma da outra - pois isso só os deixará acuados e não resultará em muito efeito prático. Deve-se buscar o diálogo com o objetivo de traduzir, um para o outro, aquilo que não é tão óbvio quanto parece.

Se Maria e José tivessem conversado, talvez compreendessem os gestos e as expectativas um do outro. E perceberiam que muitas brigas resultam de mal entendido. E assim o é com muitos casais.

E se a pessoa tiver muitas dificuldades de entender o seu relacionamento, uma análise pode ajudar a compreender de onde vêm as expectativas, e auxiliar no encontro de uma nova posição dentro do relacionamento.

Muitas vezes, um botão não é apenas um botão.

Luis Felipe Moura
Psicanalista




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Andressa Bragança

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